Autismo

Alisson V. Fernandes, João V. A. Neves e Rafael A. Scaraficci
Instituto de Computacão
Universidade Estadual de Campinas
{alisson.fernandes, joao.neves, rafael.scaraficci}@ic.unicamp.br


Resumo


O objetivo deste trabalho é apresentar uma visão geral do autismo bem como desmistificar varias
crenças, como o fato de serem génios matemáticos. Para explicar as causas do comportamento singular destes individuos, suas mudanas com a idade e suas modificações mediante tratamentos apresentamos as principais teorias cognitivas atualmente aceitas.


Palavras chaves: Austismo, Linguagem, Cognicao, Habilidades Extraordinarias.


1 Autismo


O autismo é um distúrbio do desenvolvimento humano que vem sendo estudado pela ciência
há quase seis decadas, mas sobre o qual ainda permanecem divergências e grandes questões ainda
indecifráveis. Esta sındrome foi descrita pela primeira vez em 1943 pelo Dr. Leo Kanner (medico
austrıaco, residente em Baltimore, nos EUA) em seu historico artigo escrito originalmente em inglês:
“Disturbios Autısticos do Contato Afetivo”. Em 1944, Hans Asperger, um medico tambem austrıaco
e formado pela Universidade de Viena, escreve outro artigo com o tıtulo “Psicopatologia Autıstica da
Infância”, descrevendo crianças bastante semelhantes às descritas por Kanner.
Atualmente, embora o autismo seja bem mais conhecido, tendo inclusive sido tema de varios
filmes de sucesso, ele ainda surpreende pela diversidade de caracter´ısticas que pode apresentar e pelo fato de, na maioria das vezes, a criança autista ter uma aparência totalmente normal e harmoniosa e ao mesmo tempo um perfil irregular de desenvolvimento, com habilidades impressionantes em algumas areas, enquanto outras se encontram bastante comprometidas.
O conjunto dos sintomas que caracterizam o autismo é definido por alterações presentes desde
idades muito precoces, tipicamente antes dos três anos de idade. As areas que se encontram com
um acentuado comprometimento, são caracterizadas por desvios qualitativos na comunicação, na
interacção social e no uso da imaginação.
Esses três desvios, conhecidos como a trıade de dificuldades, que ao aparecerem juntos caracterizam
o autismo, são responsáveis por um padrão de comportamento restrito e repetitivo, mas com
condições de inteligência que podem variar do retardo mental a nıveis acima da media. É bom deixar
claro que o autismo se diferencia do retardo mental porque, enquanto que no retardo mental, a
criança apresenta um desenvolvimento uniformemente defasado, no autismo o perfil de desenvolvimento é  irregular, como descrito anteriormente, deixando os pais, e muitas vezes profissionais da area, perplexos.
A incidência do autismo varia de acordo com o critério utilizado por cada autor. Segundo Bryson
e Col, em seu estudo conduzido no Canadá em 1988, chegaram a uma estimativa de 1 : 1000, isto
é, em cada mil crianc¸as nascidas, uma seria autista. Segundo a mesma fonte, o autismo seria duas
1 vezes e meio mais frequente em pessoas do sexo masculino do que em pessoas do sexo feminino.
Seguindo outras fontes, podemos encontrar outras taxas, como de dois a cinco casos a cada 10000
pessoas (DSM-IV). Outros estudos epidemiológicos reportam taxas como de dois casos por 10000
pessoas, e também 11, 6 casos a cada 10000 pessoas [Gil84, GSS91]. De acordo com [Gil84], 23% das pessoas com autismo possuem QI acima de 70, perto do normal ou bem próximo da inteligência da media. O restante, 77% al´em de possuir autismo, também possuem algum retardo mental.
Acredita-se que a origem do autismo esteja relacionada com alguma anormalidade em alguma
parte do cerebro ainda não definida, e provavelmente, de origem genética. Antigamente, quando
o autismo era mais desconhecido, existia uma hipotese que indicavam a causa do autismo estava
relacionada `a frieza ou rejeicão materna.
O diagnóstico de autismo ´e feito basicamente através da avaliação do quadro clınico. Não existem
testes laboratoriais para a deteccão da sındrome, por isso, o diagnóstico deve ser feito por um
profissional com formacão em medicina e experiência clinica de varios anos diagnosticando essa
sındrome. Normalmente, o medico solicita exames para investigar possıveis doenças que têm causas
identificaveis e podem apresentar um quadro de autismo infantil, como a sındrome do X-frágil,
fenilcetonúria ou esclerose tuberosa.
Desta forma, devido o autismo não possuir um marcador biológico, isto é, não possuir testes
laboratoriais especıficos, raramente o diagnóstico é conclusivo antes dos vinte e quatro meses, sendo
que a idade mais frequente ésuperior aos trinta meses. Apesar do diagnóstico ser relativamente
difıcil, este deve ser feito rapidamente, para que assim uma intervenção educacional especializada seja iniciada o mais rapido possıvel. É importante ressaltar que existem graus diferenciados de autismo, e que há intervenções adequadas a cada tipo ou grau de comprometimento.
Existem varios sistemas de diagnósticos para a classificacão do autismo. Os mais comuns são: a
Classificacão Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde, ou o CID-10, e o Manual
de Diagnóstico e Estatıstica de Doenças Mentais da Academia Americana de Psiquiatria, ou DSM-IV.
No Reino Unido, também é bastante utilizado o CHAT (Checklist de Autismo em Bebés, desenvolvido  por Baron-Cohen, Allen e Gilberg), que é uma escala de investigação de autismo aos 18 meses de idade.
DSM-IV lista quatro critérios da area de interação social que são qualitativamente prejudicadas
ou até mesmo ausentes em crianças com autismo. O primeiro critério está relacionado na questão do
uso de comportamentos não-verbais, como expressões faciais, postura corporal e gestos comuns na
interação social.
O segundo critério está relacionado na questão de relacionamentos. Crianças com autismo não
possuem interesses em ter amigos, ou não sabem como estabelecer relacionamentos amigaveis. O
terceiro critério é a falta de espontaneidade em dividir momentos agradáveis, interesses ou conquistas com outras pessoas.
A falta de reciprocidade social ou emocional é responsável pelo quarto critério. Por exemplo, uma pessoa com autismo pode monopolizar uma conversa sem perceber que a outra pessoa está chateada ou com pressa para terminar a conversa. Uma vez diagnosticado o autismo em crianas, estas devem ser submetidas a uma intervenção educacional rapidamente. Os tipos mais usuais de intervenção são:

TEACCH - Tratamento e educação para crianças autistas e com disturbios correlatos da comunicação.

O TEACCH foi desenvolvido nos anos 60 no Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina
da Universidade da Carolina do Norte, Estados Unidos, e atualmente é muito utilizado
em várias partes do mundo. O TEACCH foi idealizado e desenvolvido pelo Dr. Eric Schoppler,
e atualmente tem como responsável o Dr. Gary Mesibov. O método TEACCH utiliza uma
avaliação chamada PEP-R (Perfil Psicoeducacional Revisado) para avaliar a criança levando
em conta os seus pontos fortes e suas maiores dificuldades, tornando possivel um programa
individualizado. O TEACCH se baseia na organização do ambiente fisico através de rotinas
- organizadas em quadros, painéis ou agendas - e sistemas de trabalho, de forma a adaptar
o ambiente para tornar mais fácil para a criança compreende-lo, assim como compreender o
que se espera dela. Através da organização do ambiente e das tarefas da criançaa, o TEACCH
visa desenvolver a independência da criança de modo que ela necessite do professor para o
aprendizado, mas que possa também passar grande parte de seu tempo ocupando-se de forma
independente. Uma critica ao TEACCH ´e que ele supostamente ‘robotizaria’ as crianças.
ABA - Análise aplicada do comportamento. O tratamento comportamental analitico do autismo
visa ensinar á criança habilidades que ela não possui, através da introdução destas habilidades
por etapas. Cada habilidade é ensinada, em geral, em esquema individual, inicialmente
apresentando-a associada a uma indicação ou instrução. Quando necessário, é oferecido algum
apoio que deverá ser retirado tão logo seja possivel, para não tornar a criança dependente dele.
O primeiro ponto importante é tornar o aprendizado agradável para a criança. O segundo ponto
é ensinar a criança a identificar os diferentes estımulos. A principal critica ao ABA é também,
como no TEACCH, a de supostamente robotizar as crianças. Outra critica a este método é que
ele é caro.


PECS - Sistema de comunicação através da troca de figuras. O PECS foi desenvolvido para ajudar crianças e adultos autistas e com outros disturbios de desenvolvimento a adquirir habilidades de comunicação. O sistema é utilizado primeiramente com indivıduos que não se comunicam ou
que possuem comunicação, mas a utilizam com baixa eficiência. O PECS visa ajudar a criança
a perceber que através da comunicação ela pode conseguir muito mais rapidamente as coisas
que deseja, estimulando-se assim a comunicar-se. Existem outras formas de tratamento como tratamentos psicoterapˆeuticos, fonoaudiológicos, equoterapia, musicoterapia e outros, que não tem uma linha formal que os caracterize no tratamento do autismo, e que por outro lado dependem diretamente da visão, dos objetivos e do bom senso de cada profissional que os aplica.


 Linguagem e Cognição

Uma das características mais marcante do autismo é o perfil ımpar da linguagem e das habilidades cognitivas. As dificuldades linguísticas incluem, o conhecido, pronome reverso que os psicanalistas usam como evidência da crise de identidade, bem como a ecolalia que é estudada pelos condutistas.
Cada autista também apresenta ‘picos’ e ‘vales’ em suas habilidades para compreender informações. Por exemplo, os autistas, frequentemente, apresentam uma memoria fenomenal para armazenar informações como horários de  onibus, menus de restaurantes, datas, nomes de presidentes. Não obstante, estas habilidades são, geralmente, acompanhadas por um deficit em outras areas cognitivas como na contextualização de informações.

Habilidades Linguísticas


Um dos padrões mais consistentes entre as crianças autistas é o atraso no desenvolvimento da
linguagem, sendo que 35% a 45% desses indivıduos nunca chegam a desenvolver uma linguagem
funcional e comunicativa [Rut78]. O problema não se encontra na incapacidade de pronunciar as
palavras ou aprender a construir sentenças, mas nos aspectos semânticos da linguagem como compreender os significados das palavras e nos aspectos pragmáticos como o seu uso social.
´E comum apresentarem uma caracterıstica linguística denominada como pronome reverso, que
consiste em referir-se a si próprio como você e aos outros como ‘eu’. Quando um autista diz: “Você quer bala”, provavelmente está querendo dizer: “Eu quero bala”. Este problema geralmente torna-se menos severo ao longo do tempo, mas tende a persistir durante toda a vida.
Um outro sintoma presente em 85% dos autistas que desenvolvem a fala é a ecolalia [SP89], que
consiste em repetir uma palavra ou frase previamente falada. A repetição pode ocorrer imediatamente após a fala, ou pode acontecer depois de horas ou dias. Mesmo ocorrendo após um longo perıodo, é impressionante a exatidão com que as palavras são repetidas. No entanto, o deficit linguístico é  mais acentuado no uso social da linguagem, caracterizando-se por:
Uso excessivo de detalhes - quando quer referir-se a uma pessoa, por exemplo, tende a usar datas,
idade, endereço ou número de telefone;
Perseverança em tópicos específicos - os autistas apresentaminteresse em assuntos específicos como ônibus, aviões, esportes e horários de trens; sendo dif´ıcil convencê-los a mudarem de contexto;
Mudanças inapropriadas de assunto - é difıcil para um autista manter-se em um assunto, principalmente, quando este é introduzido por outra pessoa ou foge do seu interesse;
Falta de estratégia para se recuperar de problemas durante os dialogos - quando a conversa sofre
um ‘colapso’ ou ´e interrompida abruptamente, não há uma retomada do dialogo por parte
do autista.


Teorias Cognitivas


Para explicar as causas do comportamento singular dos autistas, suas mudanças com a idade e suas
modificaões mediante tratamentos, é necessário o uso de teorias cognitivas. Essas teorias buscam fornecer explicaões fundamentando-se em falhas nos mecanismos basicos da mente, que normalmente dão suporte para funções mentais específicas e facilitam o aprendizado em certos domínios. Essas explicaões tem sido uma interface vital para o estabelecimento de uma ligação entre o cerebro e o comportamento.


Teoria da Mente


A Teoria da Mente refere-se à habilidade de inferir o que os outros pensam (crenças, desejos)
com o objetivo de explicar ou predizer os seus comportamentos. Estes conceitos são estabelecidos
nos individuos com desenvolvimento normal entre três e quatro anos de idade. Um deficit desta teoria é apontado como a possıvel causa para o pobre desenvolvimento social, imaginário e comunicativo dos autistas [BCLF85].
A hipotese sobre este deficit foi testada por Frith e Cohen [Fri93] adaptando um experimento
originalmente criado por dois psicólogos austrıacos, Heinz Wimmer e Josef Perner. Este teste ficou
conhecido como Sally-Anne task. Sally e Anne estão brincando juntas. Sally tem uma bola de gude
que coloca em uma cesta antes de sair da sala. Enquanto Sally está fora, Anne move a bola para uma
caixa. Quando Sally retorna, ela deve procurar a bola na cesta. Este cenário é apresentado através
de fantoches. Crianças normais com idade igual ou superior a quatro anos de idade sabem que Sally
irá procurar a bola na cesta apesar de saberem que a bola está na caixa, ou seja, elas conseguem
representar a crença falsa de Sally assim como o estado verdadeiro das coisas. Num teste com 20
crianças autistas com idade mental de nove anos de idade, 16 falharam. Malgrado tenham respondido várias perguntas corretamente sobre o episódio, disseram que Sally iria procurar a bola na caixa, ou seja, náo conseguiram conceituar o fato de Sally acreditar em uma coisa que n˜ão fosse verdade.
Muitos outros experimentos foram realizados em diversos laboratórios confirmando que os autistas
apresentam um deficit em compreender estados mentais. Até mesmo os autistas com um alto
desenvolvimento têm dificuldade em manter ao mesmo tempo na mente a realidade e um fato incoerente com ela. Em suma, nossa habilidade de criar id´eias imaginárias, interpretar sentimentos e compreender intenções que vão além do contexto literal é regida por um mecanismo cognitivo natural. Acredita-se que o fato dos autistas acharem isso difıcil ou até mesmo impossivel deve-se a falta deste mecanismo.


Teoria das Funções Executivas


Uma explicação cognitiva amplamente aceita, pelo menos, para alguns dos problemas comportamentais do autismo é o deficit apresentado na teoria das funções executivas.
‘Funções Executivas’ é um termo abrangente cobrindo varias capacidades de alto nıvel necessárias para controlar uma ação, principalmente, uma ação num novo contexto. Inclue funções como planeamento, mudança de contexto, inibir ações automáticas e manter informações ‘on-line’ na memoria de trabalho (memoria de curta duração). O deficit dessas funções, pressuposto como um reflexo de anormalidades no lobulo frontal, é usado para explicar o comportamento restrito e repetitivo dos autistas.
Apesar deste deficit ser encontrado em v´arias desordens comportamentais, o deficit de mudança de contexto e planeamento parece serem caracterısticas inerente desta sindrome.
Uma tıpica tarefa para se verificar a capacidade de planeamento é o problema das Torres de Hanói,
na qual os individuos devem mover discos numa ordem predefinida entre três estacas de acordo com
certas regras a fim de alcanc¸arem uma meta. Crianças com autismo mostram-se incapazes diante de
tarefas deste tipo [OM94].
Uma outra tarefa em que os autistas não têm sucesso é no Wisconsin card sorting task, que consite
em ordenar cartões de acordo com três regras: cor, número e forma. Nesta tarefa, o avaliador somente fala se os cartões estão corretamente ordenados, mas não diz explicitamente ao participante a regra.
Varios estudos mostraram que os autistas apresentam dificuldades, geralmente, mantendo a mesma
ordenação, ou seja, eles têm dificuldade em mudar de regra. Uma pobre performance neste tipo de
teste reflete o comportamento repetitivo e inflexıvel apresentado por estes indivıduos [HF03].

Teoria da Coerˆencia Central


As caracterısticas não sociais do autismo compreendem tanto pontos fortes como fracos e diferentemente das caracterısticas sociais ainda são muito pouco estudadas. Estas características são, atualmente, explicadas por duas teorias cognitivas e suas variantes. A primeira denominada de ‘Coerência Central’ e uma outra ainda não bem definida, mas com base nos processos neuropsicológicos. A Coerência Central refere-se ao estilo de processamento de informações, especificamente, a tendência de processar informações dentro do seu contexto. Por exemplo, o trabalho clássico de Barlett [Bar32] mostrou que a essência de uma história é facilmente lembrada, já os detalhes são difıceis de serem recuperados.
Esta preferência por integração e processamento global é caracterıstica natural das crianças
e indivıduos que não apresentam autismo. Frith sugere que os autistas apresentam um disturbio com relação ao processamento de informações, possuindo um processamento focado em detalhes. No entanto, esta forma de processar acarreta a um empobrecimento na capacidade de processamento global assim como um deficit na contextualização dos significados. Clinicamente, crianças e adultos autistas, frequentemente, mostram uma preocupação com detalhes e partes, enquanto falham em extrair informações globais. Esta forma de processar é atribuıda a uma fraca coerència central.
Um ponto positivo desta teoria é a capacidade em explicar padrôes de performances excelentes e
pobres com apenas um postulado, que prevê uma performance relativamente boa onde é necessária
atenção em informações locais, mas uma performance pobre nas tarefas que exigem um reconhecimento global ou integral do contexto.
Nos ´ultimos anos esta teoria vem sendo testada empiricamente, focando basicamente em três
nıveis:
Coerència perceptual - indivıduos com autismo (idade 8-16, QI 40 - 92) foram expostos a um livro
texto com ilusões visuais. O objetivo é analisar o desempenho dos autistas diante de ilusões
que exigem uma visão global. Estes testes mostraram que os autistas são menos propensos a
serem enganados por ilusões visuais em duas dimensões do que as pessoal normais ou com
outros problemas mentais. Já no caso de ilusões em três dimensões os autistas apresentaram um
desempenho análogo as demais pessoas [HF03].
Coerência na construção viso-espacial - foi testada for Frith e Shah [HF03] que demonstraram a
facilidade dos indivıduos autistas em realizar a Wechsler Block Design task (figura 1) onde
deve-se construir uma figura maior a partir de blocos de construção. Um outro teste em que os
autistas obtiveram sucesso é no Embeded Figures Test, que consiste em encontrar uma determinada
figura dentro de uma figura maior (figura 1). Estes testes enfatizam o processamento
segmentado e focado em detalhes.

Coerência verbo-semantico - Frith e Snowling usaram homógrafos (palavras com a mesma grafia,
mas com pronúncia distinta) para examinar o uso do contexto da frase na pronúncia de um
homógrafo, por exemplo, “In her eye there was a big tear”; “In her dress there was a big
tear”. Se uma pessoa com autismo apresenta uma fraca coerência central neste nıvel, para ela
ler uma frase é o mesmo que ler um conjunto de palavras desconexas. Estudos mostram que
crianças e adultos com os mais diversos nıveis da sındrome falham nesta tarefa. Um fato interessante
ocorre com os indivıduos que possuem capacidade para compreender os significados
das palavras. Quando solicita-se para ler as frases com sentido, pronunciam os homógrafos
corretamente. Isto aparenta que a fraca coerência central é a maneira espontânea e automática
utilizada por esses indivıduos, caracterizando, na verdade, um estilo cognitivo [HF03].


Habilidades Extraordinárias


Uma imagem distorcida que muitos tem dos autistas refere-se `a crença de que todos são gênios
matemáticos, fato erroneamente apresentado pela maioria dos filmes, como Rain Man. Existem de
fato autistas com habilidades extraordinárias, denominados de autistas de ‘alto desempenho’, mas que são uma minoria, representando menos de 5% dos portadores do disturbio.
Autistas de alto desempenho apresentam uma mem´oria surpreendente, além de outras habilidades
extraordinárias que não são exibidas pela maioria das pessoas, tais como cálculo matemático, habilidades artísticas e musicais. Com relação `a memoria, apresentam um grande desenvolvimento da memoria fotografica, da memoria auditiva e da ‘memoria de calendário’, eles são capazes de se lembrar e responder prontamente, por exemplo, que dia da semana foi 20/02/2002. Eles também podem se lembrar de datas de nascimento e morte de amigos ou de pessoas publicas como de presidentes, artistas e de suas fam´ılias. Costumam tamb´em se lembrar de pessoas que não vêem há mais de 20–30 anos [Car98].
A razão pela qual alguns indivıduos autistas apresentam estas habilidades ainda é desconhecida. ´E
possıvel pensar em uma compensação de regiões cerebrais especializadas dada a deficiência de outras.
Existem muitas teorias, mas nenhuma evidência sustenta qualquer uma delas. Dr. Rimland do Center for the Study of Autism, nos EUA, especula que estes indivıduos “têm uma inacreditável habilidade de concentração e podem focalizar completamente a sua atenção em uma area especıfica de interesse”. Outros dois pesquisadores Dr. Bruce Miller da University of California em São Francisco e Allan Snyder da Australian National University, constataram que quando determinada parte do cerebro era ‘desligada’, em geral o lobo temporal esquerdo, pessoas eram capazes de manifestar habilidades extraordinárias. Segundo o professor australiano quando uma parte do cerebro não funciona adequadamente ela desbloqueia uma parte que até então encontrava-se inerte. Seguindo essa ideia qualquer pessoal poderia ter, através da inibição do funcionamento de certas regiões cerebrais, habilidades extraordinárias.
A memoria fotográfica é um bom exemplo de habilidade altamente desenvolvida por alguns portadores desta deficiência. Este fato parece ser fruto de hiper-desenvolvimento de determinadas areas do cerebro em detrimento de outras que ficam bastante comprometidas como a linguagem e a capacidade de planeamento. Este desequilıbrio parece mesmo ser uma anomalia ainda que seja desejável. De acordo com [sav], os autistas de alto desempenho apresentam uma variac¸ ˜ao entre três classes de comportamentos:
Splinter skills - tipo mais comum, onde o portador da sındrome apresenta obsessivo hobby por memorizar certas coisas como fatos esportivos, lista telefonica, horário de trens, menus de restau-rantes, etc. Talented skills - pessoas com habilidades mais bem desenvolvidas e especializadas, tais indivıduos podem ser capazes de pintar belos quadros, ou fazer complexos calculos matemáticos de cabeça.
Prodigious skills - este é o mais raro tipo, estima-se que existam menos de 25 indivıduos em todo o
mundo. Pessoas deste grupo podem ser capazes de tocar um concerto inteiro de piano depois
de ter ouvido-o apenas uma vez.
Dentre as habilidades fenomenais apresentadas pelos autistas destacam-se:
Habilidades Musicais - geralmente relacionadas a pianos, alguns autistas podem tocar sem nunca
ter sido ensinado. Como exemplo temos o pianista Derek Paravicini que aos quatro anos de
idade era capaz de tocar, tendo aprendido sozinho.
Habilidades Artisticas - como capacidade de desenhar, pintar e esculpir. Como exemplo temos
o pintor Richard Wawro, que al´em de autista é cego. Seu trabalho pode ser encontrado em
www.wawro.net/gallery_home.html. Outro exemplo é o artista Stephen Wiltshire que tem a capacidade de desenhar prédios, tendo-os visto apenas uma vez. Uma amostra do seu trabalhos esta disponıvel em www.stephenwiltshire.co.uk.
Habilidades Matem´aticas - capacidade de trabalhar com complexas somas de cabec¸a ou calcular
datas do calendário. Outras Habilidades - Capacidade de saber as horas sem consultar um rel´ogio, incrıvel senso de direção e memorização de mapas.


Conclusões


Com este trabalho verificamos que o autismo ´e uma sindrome com sintomas e graus de manifestações extremamente variados. Até o presente momento pouco se sabe, com exatidão, quais são as suas causas, sendo o conhecimento fundamentado, principalmente, em teorias cognitivas. Vimos também que pesquisas nesta area trouxeram novas maneiras de encarar a sindrome além de novas hipoteses sobre o funcionamento cerebral.


Referências


[Bar32] F.C. Barlett. Remembering: a study in experimental social psychology. Cambridge University
Press, 1932.
[BCLF85] S. Baron-Cohen, A.M. Leslie, and U. Frith. Does the autistic child have a ‘theory of
mind’. In Cognition, pages 37–46. 1985.
[Car98] S.H. Cardoso. Mem´oria e autismo. Brain&Mind - ElectronicMagazine on Neuroscience,
4, 1998.
[Fri93] Uta Frith. Austism. Scientific American, pages 108–114, 1993.

[Gil84] C. Gillberg. Infantile autism and other childhood psycoses in a swedish urban region:
Epidemologicas aspects. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 25:35–43, 1984.
[GSS91] C. Gillberg, S. Steffenburg, and H. Schaumann. Is autism more common now than ten
years ago? British Journal of Psychiatry, 158:403–409, 1991.
[HF03] E.L. Hill and U. Frith. Understanding autism: insights from mind and brain. The Royal
Society, pages 281–289, 2003.
[OM94] S. Ozonoff and R.E. McEvoy. A longitudinal study of executive function and theory of
mind development in autism. Dev. Psychopatol, 6:415–431, 1994.
[Rut78] M. Rutter. Language disorder and infantile autism. In M. Rutter and E. Schopler, editors,
Autism: A rappraisal of concepts and treatment, pages 85–104. Plenum, New York, 1978.
[sav] Autistic savant. Disponıvel em: http://www.betterhealth.vic.gov.au/bhcv2/bhcarticles.nsf.
[SP89] A. Schuler and B. Prizant. Echolalia. In E. Schopler and G. Mesibov, editors, Communication problems in autism, pages 163–184. Plenum, New York, 1989.




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