CÉLULAS-TRONCO E DOUTRINA ESPÍRITA



CÉLULAS-TRONCO E DOUTRINA ESPÍRITA

Américo Domingos Nunes Filho *

Tema, de grande actualidade, empolga classe médico-científica
http://2.bp.blogspot.com/_Wxl4w7QDtbM/S9ZSOVFIXjI/AAAAAAAAAAg/v_0I4geiLvk/S640/8e730_celulas-tronco.pngAs células-tronco correspondem à fonte formadora do corpo físico, podendo dar criação a todos os tipos de células, ensejando a geração dos tecidos, constituindo os órgãos e sistemas. São igualmente capazes de recuperação tecidual, reparando áreas danificadas, não só cicatrizando feridas, como também regenerando órgãos enfermos. As células-tronco, com maior facilidade de formação de outros tipos de células, são as encontradas no embrião (fertilização em vitro), no estágio de blastocisto (100 células), cerca de oito dias após a fecundação do óvulo, sendo dotadas de plasticidade alta, possuindo elevada capacidade de diferenciação, a ponto de se transformarem em um organismo completo. Existem também as chamadas células-tronco adultas, retiradas da medula ou tutano do osso esterno ou do ilíaco do próprio doente, como, igualmente, da pele e tecido nervoso. Outras fontes de obtenção: o cordão umbilical, a placenta e os dentes de leite.
No Brasil, nas pesquisas com células-tronco, são utilizadas as adultas, por causa das questões éticas e do impedimento da legislação em vigor, em relação às embrionárias. Outro dado importante é a possibilidade de rejeição, quando essas células provêm de outro indivíduo, mesmo sendo um embrião. Trabalhos com células-tronco estão sendo realizados em todo o mundo. Em nossa pátria, as pesquisas estão bem avançadas, com os primeiros resultados já aparecendo, principalmente na área da cardiologia e da neurologia.
Em São Paulo, na USP, no Instituto de Ortopedia e Traumatologia, há uma equipe de cientistas trabalhando com um protocolo de pesquisas, visando a recuperação de pacientes paralíticos com lesão de medula espinhal, introduzindo, através de cateter, solução de células-tronco adultas, na coluna, esperando que elas se transformem em células nervosas, recompondo os neurônios afetados. Maravilhoso constatar a possibilidade, no futuro, de um paralítico poder andar por meio da aplicação das células-tronco, acarretando a reparação do local afetado. Que lindo! A ciência curando, assim como o próprio Cristo o fez.
Em tese, centenas de doenças poderão ser erradicadas de nosso orbe, através da terapia por células-tronco, deixando, portanto, de ser a Terra, no futuro, planeta de provas e expiações, sendo promovida, então, a mundo de regeneração.

Implicações doutrinárias
As pesquisas com células-tronco, envolvendo embriões, estão causando muita ansiedade nos meios religiosos, porquanto há necessidade de sacrificar os embriões, mesmo em fase inicial, sendo constituídos de apenas 100 células. Em verdade, através da fertilização in vitro, técnica também conhecida como bebê de proveta, muitos embriões estão sendo manipulados em laboratórios e a oferta é grande.
Algumas nações, inclusive a nossa, estão utilizando células-tronco adultas; portanto, sem a utilização de células embrionárias e estão obtendo ótimos resultados iniciais. Como as pesquisas estão em fase bem precoce, ainda é prematuro chegar a alguma conclusão a respeito da técnica ideal. Fica no ar uma questão: Se, no futuro, o sucesso das experiências apenas ocorrer com a clonagem terapêutica, exatamente sacrificando os embriões, como se comportarão as religiões?
Será que nós vamos proceder como na Idade Média, levando qualquer Galileu a um tribunal, querendo sufocar suas idéias? Será que estaremos contrários ao progresso científico, principalmente se doenças tão graves puderem ser erradicadas do planeta? Será que deixaremos de obter a cura de um mal, até então incurável, como a paralisia, que nos acomete ou a um familiar, devido a não aprovação de uma crença religiosa?
Os cientistas afirmam ser imprescindível não descartar o material embrionário nas pesquisas, porquanto as células-tronco de embriões são muito versáteis, proporcionando maior facilidade no acompanhamento de todo o processo de diferenciação celular, facilitando a ciência assenhorear-se dos mecanismos gênicos, envolvidos no processo.
A oposição dos grupos religiosos é intensa e radical. É muito fácil combater as idéias, quando estão na fase de elaboração e encaminhamento. Queremos ver a reação dos segmentos religiosos (O Espiritismo, como o Consolador Prometido por Jesus, certamente estará fora desse contexto), se as curas, através das células-tronco, provindas de células embrionárias, se processarem, fazendo os paralíticos andarem, os cegos verem, a insuficiência cardíaca desaparecendo do contexto médico, assim como numerosas doenças sendo erradicadas do nosso orbe. Duvidamos que os conceitos religiosos serão inquestionáveis em caso de necessidade premente da cura, através das células-tronco embrionárias, para si próprio, para um familiar ou mesmo para um amigo.
Imagine, estimado leitor, você, por exemplo, sofrendo intensamente de um mal só curável pela terapia com utilização de embriões, com até mesmo a possibilidade de andar ou de enxergar novamente e, infelizmente, recusar o tratamento que o levaria à libertação porque sua religião não permite. E se, porventura, exemplificando, o necessitado for seu próprio filho?
Certamente, em obediência a preceitos religiosos, o indivíduo, infelizmente, deixará de receber o alívio imediato. Na dimensão espiritual será recebido, não com glória (como pensam os fundamentalistas de todas as religiões), mas com grande pesar.
Sendo o Espiritismo, o Consolador prometido por Jesus, certamente as respostas serão obtidas. O Mestre ressaltou que não deixaria a humanidade órfã, porquanto “seriam ensinadas todas as coisas” (João 14:26). Afinal, estamos no limiar de uma nova era, na qual os enigmas serão decifrados e as barreiras do desconhecido sofrerão um intenso processo de desmoronamento.
Aos espíritos, reencarnados com o “talento” da pesquisa, lhes são dadas a permissão e a responsabilidade do conhecimento e do avanço científico, em nosso orbe, e os religiosos têm a obrigação de acompanhar o desenvolvimento da ciência, interferindo, quando necessário, através de colaboração com a Bioética. Certamente, o evolver amplo do crescimento científico, sendo inevitável, acompanhado do desenvolvimento moral, assentará, em nosso planeta, a mudança vibratória de mundo de provas e expiação para o de regeneração.
O cientista está incumbido pela Divindade de expandir o conhecimento científico terreno, enquanto o religioso deve ter precaução e discernimento na perquirição dos assuntos da ciência, que não são da sua alçada, não se furtando, porém, a participar dos debates, quando alicerçado no conhecimento científico e, assim mesmo, através da Bioética. No nosso modo de entendimento, o Espiritismo é a religiosidade do amor universal e da fé raciocinada, amalgamada com o espírito científico.
No episódio da clonagem da ovelha Dolly, foram utilizados 277 embriões e apenas um vingou. A presença do princípio inteligente deu vida a um dos embriões, os outros, apesar de ser utilizado o mesmo procedimento técnico, não chegaram a termo, exatamente porque não possuíam o princípio transcendental gerador da vida em total plenitude.
As pesquisas recentes com clonagem reprodutiva de animais estão revelando resultado positivo em apenas 1% dos casos; portanto, 99% dos embriões resultantes de animais clonados, utilizando o raciocínio e a lógica, são desprovidos de princípio espiritual, enquanto a taxa de sucesso na fertilização assistida, com aperfeiçoamento das técnicas, está em torno de 20% a 30%.
Importantes esses dados, porquanto sabemos pela questão 344 de OLE que a união da alma ao corpo se realiza na concepção. Logo, pelo menos 70% a 80% dos embriões de laboratório, descartados, que são utilizados nas pesquisas de células-tronco, são despojados de espíritos, totalmente de acordo com a codificação espírita, a qual, com muita felicidade, afirma que pode haver formação de corpos que jamais tiveram um espírito destinado, desenvolvendo-se, apenas, segundo as leis biológicas, porém não sobrevivem (natimortos) (Questão 356 de OLE).
Se imaginarmos um estudo imaginário de emprego de células-tronco em ovelhas, 276 embriões poderiam ser aproveitados, sem qualquer sacrifício do princípio inteligente. O mesmo pode acontecer na espécie humana, sabendo que pode haver formação de embrião sem que haja o espírito organizador da forma ali presente. Portanto, as células-tronco podem provir de um embrião desprovido de espírito.
Teoricamente, a obtenção de células-tronco embrionárias, através da clonagem terapêutica, contendo o princípio transcendental, baseando-nos nas pesquisas realizadas com a ovelha Dolly e com outros animais, é de 1%. Dos embriões resultantes da fertilização assistida, em tese, somente 20 a 30% contêm espírito. E agora, como raciocinaremos, diante do fato da obtenção das células-tronco ser conseguida às custas do sacrifício da entidade extrafísica?
Primeiramente, a certeza de que o acaso não pode presidir os fenômenos vitais, já que o Universo é regido por leis sábias e precisas. Efeitos inteligentes não podem ter como causa fatores casuais. Segundo Kardec, “um acaso inteligente já não seria acaso” (“OLE”, Q. 8). Portanto, está tudo sob controle superior, existindo uma Soberana Justiça, regendo toda a vida, proporcionando cada indivíduo passar pelas experiências necessárias ao seu progresso evolutivo, visando uma harmonia futura, dentro do contexto evolutivo, no qual toda a criação divina está mergulhada.
A Questão 345 de “OLE” é valiosíssima para o assunto em tela, já que a união do espírito com o corpo,desde o momento da concepção, não é definitiva, podendo o ser extrafísico renunciar a habitar o corpo que lhe está destinado. Portanto, os laços fluídicos, que o prendem ao embrião, facilmente podem ser rompidos. Se o espírito está ligado a um embrião, fecundado em laboratório, e não utilizado, não desejando participar, por algum motivo, da doação de suas células-tronco, mediante o seu livre-arbítrio, pode libertar-se, rompendo os frágeis laços, deixando seu corpo embrionário, aproveitado para o trabalho terapêutico. Nesse caso, não haveria presença de espírito, no momento da retirada das células-tronco.
Em outra possibilidade, estaremos diante, certamente, de encarnações grandiosas, compulsórias, de seres que negaram a vida no passado e agora doam seu precioso arcabouço físico, justamente suas células-tronco. Sendo espíritos, por exemplo, sem comando e psiquicamente desagregados, essas encarnações, perfumadas pelas flores da fraternidade legítima, dando ou doando de si próprios, serão muito necessárias aos seus espíritos, desejosos de paz e ansiando pela redenção espiritual. Estamos, em tese, nos referindo aos ovóides, seres espirituais que sofrem um processo de auto-aniquilamento, isto é, ostentando pensamentos transitórios de desintegração psíquica dentro de si mesmos, vivenciando intenso remorso.
Acreditamos que muitos homicidas e suicidas se encontram nessa faixa de sofrimento, assumido suas estruturas perispirituais a forma esférica, porém sem perda de sua integridade. Assim como diz o benefeitor espiritual André Luiz no livro “Libertação”: “Há apenas perda da forma e não do veículo”. É claro que “Deus é Amor” e utiliza-se de tudo, aproveitando esses irmãos para reencarnarem, sim, e nessas condições. Muitas vezes, a regressão psíquica é de tal monta, apresentando o perispírito tão retraído, que, após a concepção, quase nada conseguem arquitetar. Porém, apresentam-se aptos, para doar as células da camada interna do blastocisto, exatamente as cobiçadas células-tronco. De qualquer forma, está havendo uma melhora psíquica, porque já estão recebendo as bênçãos de agradecimento da vida por movimentarem forças vibratórias intensamente amorosas.
Não é difícil imaginarmos o que é o sofrimento espiritual, vivenciado num tempo que parece não ter fim, já distanciado do mundo físico, sem ter a carne para servir de “mata-borrão”. Esses espíritos padecem intensamente. A Misericórdia Divina propícia esse processo de depuração espiritual, reencarnando os ovóides compulsoriamente em corpos sem condições de desenvolvimento normal, porém servindo para que a fraternidade legítima seja praticada nessas condições. Certamente foram seres que, em diversas encarnações, utilizaram suas vidas contra a vida e, agora, estão utilizando suas vidas para a vida, doando, sob as bênçãos do Alto, suas tão ardentemente desejadas linhagens de células-tronco.
No futuro, esperando que esteja bem próximo, acreditamos que os espíritas estarão em uma posição bem confortável, em relação às células-tronco embrionárias. Não nos negaremos a uma possível cura e, ao mesmo tempo, mesmo sabendo da pequena possibilidade de ter estado algum espírito ali presente, oraremos ao Pai para que abençoe e guarde, se lá estava, o irmão espiritual, ovóide ou quem quer que seja, que proporcionou a possibilidade do resgate de faltas pretéritas, sendo veículo do expurgo da aflição e do sofrimento, acarretando a extinção da expiação.
Dedico este artigo aos abnegados cientistas, em todos os países, que estão trabalhando nas louváveis e memoráveis pesquisas com células-tronco.


 
Enviar um comentário